A distância entre amar e estar-se acompanhado?
Eram 02h25 e eu tinha a Carolininha , agora com 16 anos, ao pé de mim, a "explicar-me" o que significa paixão, amizade, responsabilidade, respeito. A sentir a euforia da adolescência. Eu já me antecipava às perguntas e aos comportamentos entre observações, mas não tinha ainda percebido porque é que lhe chamam de mana ou dama. Uma nova forma de acarinhar entre amigos e outros mais. Talvez eu quisesse antes procurar as fotografias daquela miúda princesa, tão calada e tão próxima de mim e não a quisesse sentir no seu crescimento emocional, para lhe evitar qualquer dôr proporcional. Entre dúvidas e certezas a segurança de quem já sabe o que quer. Mas isso deixou de ser importante a partir do momento em que a tinha ao pé de mim viva, intensa e expressiva a explicar-me duma forma batoteira, que só não se apaixona para não pôr em perigo testes, exames e notas. Com convicção sobre o que pensa dizia que achava que, a exemplo dos adultos que sempre que não se sentem amados assumem como missão salvar o casamento. Que em pleno século XXI há muitos adolescentes que não estando por aí além apaixonados pela vida que têm procuram a salvação nas relações de amizade que vão construindo ou na escola. E não aos hábitos ou crenças que não fazem sentido mesmo para os mais adultos .Somente pela imagem que a sociedade nos obriga a ser? Quem criou a sociedade?
Confesso deixou - me apreensiva pela tenra idade de percepção.
É verdade que me perguntei se a devia corrigir. Se lhe devia ter dito que as pessoas que procuram estabilidade não amam simplesmente. Que infelizmente procuram a estabilidade através do que os outros proporcionam. Habituam-se a viver de desamor, quando devem de procurar o amor dentro delas, numa energia e vontade expressa de estar perto. São as inseguranças que se assumem antes de qualquer certeza. Porque vivem o amor a medo.
Ficou por lhe dizer ainda que não estava à espera, essa é a verdade, que ninguém, muito menos com a idade dela, mas principalmente ela mesmo sendo batoteira e provocadora de risos vivesse qualquer relação sem sentido de cumplicidade.
Acho que percebeu o meu dilema e, antes que eu me estatelasse ao comprido com um comentário precipitado, ela explicou-me que as colegas que namoram não estão apaixonadas pelos respectivos namorados. E que essa forma de amar sem amor no fundo também não a entende. Inclusive assusta.
Hábitos ou tendências?
(- Ah! bom - pensei para mim)
Aí respirei fundo e sorri por dentro, dizendo a mim própria que há silêncios que são sábios, realmente. E mais confortada por sentir a Carolininha a pensar sobre um formato de essência diferente, mais crescida comentei:
Amar sem amor? É mesmo assim agora? (disse eu)
C:Elas dizem que sim. Não estão sozinhas. Não estão estão apaixonadas.
“Mas uma pessoa habitua-se”.
Mas não é isso que no futuro eu gostaria. Mas sim alguém que me levasse mais a sério. Lá para a frente no futuro...
A distância entre os nossos exemplos e as atitudes dos nossos filhos não serão assim tão distantes. Apenas diferentes na forma de agir ou falar, talvez fazer.
Entre desabafos dos adolescentes em relação aos amigos são apenas dúvidas que levantam certezas. Cabe - nos a nós enquanto País tentar elevar a melhor resposta com verdade e autenticidade. Só assim fará sentido para todos. Todos crescem, todos aprendem igualmente updatam-se!
É verdade que somos frágeis, quando nascemos. E de tão vulneráveis achamos que não podemos sobreviver sem quem cuide de nós e que nos saiba ler.
Igualmente verdade, que somos engenhosos e sábios desde o princípio. Não sabemos criar relações unicamente utilitárias. Criamos vínculos e quando damos por isso, descobrimos o amor. É verdade que somos embalados por essa matriz, que nos torna mais sábios maginando, que a exemplo do seu amor, as pessoas estão disponíveis a dar-se, a escutar-nos, a sentir-nos e a olhar por nós. E que por causa dessa experiência ser tão longínqua, talvez tomemos o amor como o ar a que temos direito. Como se à custa de tão amados, não precisássemos de lutar pelo amor como um bebé luta pela sua mãe. Mas se é assim, como é que nos deixamos andar preguiçosamente, como se o amor fosse um hábito que se ganha? Quando ele é a alma que deve ser visto como algo a alimentar diariamente e não como um ganho atribuído para a vida toda.
Habituados a tanto para aprendermos com tão pouco. Basta abrirmos a mente ao diálogo, quebrando barreiras sobre o que se pode ou não falar numa relação que faz sentido.
País e filhos onde a disciplina é importante, onde os princípios de valor são debatidos onde o respeito se conquista sem qualquer imposição de velhos hábitos ou crenças.
Eu já me "updatei"
Adriana Iria